terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Meu Erro Foi Estudar

Essa história apresenta Jurandir, um jovem bem apessoado, com seus 28 anos, bem sucedido e que morava em uma casa em um bairro nobre de Brasília. Voltava à sua antiga escola onde gostaria de agradecer aos seus professores por tudo que prontamente o ensinaram.
Quem vai contá-la é um aluno da rede pública de ensino que presenciou o trágico espetáculo. Estava ele sentado à espera de uma condução para mais um dia de luta pela sobrevivência nesse mundo onde a formação educacional é uma meta obrigatória.
Convido você, leitor, a entender essa história comum no nosso país, inaceitável na nossa cultura e, particularmente, lamentável a meu ver.

Certa feita, Jurandir, recém formado e bacharel em relações internacionais, acordou com uma animação diferente. Ao sair de casa para caminhar, como era de costume desde aos tempos de adolescente, começou a refletir e lembrar de tudo o quanto já tinha feito e lutado para chegar aonde estava, e quão grande foi a contribuição de inúmeras pessoas para tanto. Nunca se apegou a uma suposta estabilidade financeira, almejada por 90% dos habitantes de sua cidade, porém sempre se destacou em suas atividades.
Retornado à sua casa decidiu tirar o dia de folga para agradecer a alguns dos professores que ainda se empenhavam para formar pessoas, profissionais e seres humanos, na sua antiga escola. Entrou em casa, pegou a chave do seu Honda Civic modelo 2010/2011 e direcionou-se ao seu destino. Seu coração já radiava de alegria, pois iria rever, além de mestres, amigos que nunca esqueceria.
Ao chegar à escola, estacionou em frente à árvore e ao ver que as placas, desenhos, portões e calçada ainda eram as mesmas e que a segurança da escola continuava acontecendo, Jurandir sentiu-se em casa. Percebeu também que existia mais interatividade, pois o policial que ali se encontrava estava conversando com duas alunas e, aparentemente, era uma conversa muito agradável. Situação que na sua época não acontecia até mesmo por que a figura de um policial na época era de respeito total de no máximo um “bom dia”. Quando entrava na escola percebeu que esse policial era o cabo Xavier, formado pela mesma escola alguns anos antes de Jurandir, foi aprovado em um concurso público para a Polícia Militar e agora estava como responsável pela a segurança dos alunos da escola.
Xavier aborda Jurandir perguntando:
-Oh Amigo Afrodescendente, uma perguntinha básica: você é traficante de drogas?.
Jurandir com um enorme sorriso no rosto, estranhando a pergunta do Policial, mas entendendo que aquilo era uma brincadeira para divertir as meninas, responde com um tom de carinho e atenção:
-Não, Não sou.
Retirando-se da presença do policial é novamente solicitado:
-Ei rapaz, ainda não falei que pode ir, aqui nessa escola você só vai quando eu disser que pode ir.
Sem acreditar que isso estava acontecendo Jurandir volta:
-Sim Senhor.
As meninas que estavam com o policial sorriem com a autoridade que o cabo impunha sobre o jovem negro, o policial por sua vez prossegue:
-Para ter um carro desses ou você é traficante de drogas ou é um ladrão, qual dos dois você é ?
Jurandir, que já perdendo seu foco, distraído do seu objetivo inicial, se desmonta com a abordagem do policial, já não estando mais com aquele belo sorriso, com muita classe e frieza responde à altura a afronta do policial:
-Sabe qual a diferença entre eu e você?
O Policial já não acreditando que ele poderia prosseguir com o tom de voz, diz:
-Não, Qual?
Jurandir, já desistindo de entrar na escola voltando para o seu carro diz:
-A diferença entre eu e você é que eu estudei.

Jurandir foi preso por desacato à autoridade.

Autor: Diogo Hamlet

A comida era jogada ao chão. Seminus, os escravos dela se apoderavam num salto de gato, comida misturada com areia, engolindo tudo sem mastigar porque não havia tempo a esperar diante dos mais espertos e vorazes.
Ademar Vidal